Histórias de Moradores do Tucuruvi

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores do bairro.

História do Morador: Antônio Pedrosa de Vasconcelos
Local: São Paulo
Publicado em: 26/12/2012




Vídeo: Comprar não é só comprar


Sinopse:


Identificação. As poucas lembranças da cidade natal e a mudança da família para São Paulo. A infância e a adolescência passadas no bairro Jardim Brasil, na zona norte da cidade. O pequeno comércio de seu pai, que vendia revistas e gibis em feiras públicas. O trabalho como caixa de banco, a graduação em Jornalismo e a vocação para atuar no comércio de livros usados, ao lado do pai. A abertura da loja própria, a Sebolândia, e os desafios de administrar um comércio de livros usados, os sebos. O comércio no bairro do Tucuruvi, zona norte de São Paulo.

História

“Eu tinha 24 anos quando abri o Sebolândia e, bom, eu era um comerciante atípico; eu fazia coisas absurdas. A pessoa ia comprar, eu discutia com ela. Hoje eu sou mais zen, mas na época se a pessoa falasse: ‘Ah, eu vou votar no Maluf’, eu já retrucava: ‘Você vai votar no Maluf? Que é isso? Onde já se viu?’ E rasgava todo o pacote dela: ‘Eu não quero dinheiro seu! Vai-te embora!’ Se o sujeito entrasse e demonstrasse qualquer ideia que fosse politicamente contrária a minha opinião, eu maltratava. E olhe que eu tinha feito Mercadologia. Talvez eu tenha sobrevivido porque o sebo era um bom negócio na época. Ou a pessoa comprava, vamos supor hoje, cem reais lá num shopping, numa Saraiva, numa Siciliano, ou então a pessoa ia até um sebo e pagava 30. Parece absurdo, mas no momento em que a inflação era 80% ao mês para mim era ótimo. A pessoa recebia seu salário e tinha que gastar logo.

Então ela ia correndo para o posto de gasolina encher o tanque, para o supermercado para fazer a compra do mês, porque senão no dia seguinte ela não comprava o que aquele dinheiro comprava no dia anterior. Nessa época o comércio do Tucuruvi era forte e eu peguei aquele momento bom, ainda, da leitura. Hoje em dia você não precisa do sebo; você pode pesquisar: ‘Ah, tem uma livraria lá no Rio Grande do Sul que está fazendo a promoção do livro que eu quero.’ É isso que está decretando a queda do sebo. Hoje eu tenho clientes remanescentes, que ainda não estão inseridos totalmente na informática, no tablet, mas eu sei que essas pessoas vão morrer, vão passar, e as mais jovens já vão vir com outra ideia. Eu tenho que ter noção de que o novo está vindo, e que nesse mundo novo eu vou ser o exótico; eu não vou ter o mesmo nível, o mesmo patamar de venda.

Não adianta fugir: a tendência é virar tudo virtual; então acho que estou fadado mesmo a virar virtual. Antigamente a loja lotava; a loja do jeito que era: simples, com poucos volumes. Hoje meu acervo está em torno de 35 mil itens e às vezes a gente fica uma hora sem entrar um único cliente na loja. Agora tem uma coisa: eu sempre achei que o livro, você ler um livro, não era só uma compra, era todo um processo. Num momento eu estou falando para você do livro, depois você já está imaginando o livro, depois você vai pesquisar onde tem esse livro e só aí você vai à livraria. E você vai várias vezes, tudo isso eu considero parte do processo de leitura. Você conversou com seu amigo no bar, tomando uma cerveja; depois você foi assistir a um documentário sobre o assunto... Tudo isso é ler o livro!

Olhar numa tela a capa de um livro e os dados de um livro não é a mesma coisa de você chegar numa estante e... Você nunca viu James Joyce na sua vida, você não sabe quem é. Aí, de repente, você vê Ulisses... Fala: ‘Nossa, Ulisses é aquele cara do Homero. Olha, deve ser aquele o cara do Homero.’ Aí você pega, fala: ‘Nossa, que livro doido, não tem vírgula, não tem nada, que coisa. Ah, vou levá-lo.’ Isso você nunca vai ter pela internet. Você pegar um livro do Machado, vamos supor, aí o sujeito abre lá o Brás Cubas e vê lá: ‘Aos vermes que comerão...’ ‘Nossa, que legal, deve ser legal esse livro.’ Comprar não é só comprar. Triste da pessoa que só compra, porque eu acho que ela está perdendo um monte de outras coisas que estão envolvidas nesse ato. Comprar é uma questão cultural.”

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